segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Dos "valores" e da "boa" conduta social


"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade".

(trecho de Lisbon Revisited, poema de Álvaro de Campos)

amizade-amor-escola-trabalho-casamento-filhos-religião-submissão-morte-Deus-inferno-felicidade-responsabilidade-juventude-polidez-hipocrisia-lei-fé-boa aparência-"viver de aparências"-posse-dinheiro-sucesso................

O que é essencial à vida? O que é natural? E o que é imposto? O que, realmente, faz feliz ? O que é a felicidade? Ser semi-deus (ou o mais "correto" possível) segundo os parâmetros tão arraigados pela civilização? Tentar ser fiel ao coração, em detrimento da "razão" ? A razão é fruto do coletivo, a razão é coletiva e, por isso, geralmente a razão torna-se preponderante, porque o social pesa muito mais do que o "de dentro", pelo menos para a maioria das pessoas.
Quantas culturas a viver sobre a Terra, quão distintas umas das outras, algumas totalmente antagônicas... Quem tem a verdade? O que é bom? O que é correto? A tendência é sempre supor corretos os "nossos" valores (de família, de cultura, de religião, de grupo social, de hemisfério, etc...). Montaigne* tem uma frase que considero chave para quase todas as respostas:

Chacun appelle barbarie ce qui n'est pas de son usage (Livre II).

"Cada um considera barbárie aquilo que não é de seu uso".

Discutir o ser marionete da cultura na qual estamos inseridos é bem comum, no entanto, mesmo aqueles que tentam cortar as cordas do seu corpo, buscando a "liberdade" e a possibilidade de não ser marionete, também são, foram ou serão corrompidos algum dia. Será ? Será que não dá pra tentar fugir do cárcere dos valores e da "boa" conduta social ?

"Cada indivíduo sempre teve de lutar para evitar a opressão da tribo. Se você tentar, muitas vezes estará sozinho e, noutras, assustado. Mas não há preço que pague pelo privilégio de ser dono do próprio nariz".

Friedrich Nietzche (1844-1900)

* Montaigne - Escritor francês do século XVI .Criador do termo "ensaio", gênero o qual ele usou para falar de diversas questões, como a educação, por exemplo.

4 comentários:

  1. Não acho que a razão seja social... acho mais fácil chamar razão o contrário daquilo que chamos barbárie, seguindo esse conceito de Montaigne aí...
    Continuo achando que é o equilíbrio de todas as coisas aí que faz alguém feliz, ou que faz bem, etc, etc, nenhum desses termos está exatamente correto pra explicar isso. Sem um dos elementos, a coisa está incompleta. Sem razão, sem emoção,sem valores - algo fica faltando.
    O problema é que equilibrar-se na balança é um desafio que leva uma vida.Assim a nossa sociedade é composta por "românticos", "parnasianos" e "barrocos enlouquecidos" :p

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  2. Acrescentando:
    Porém o conceito de razão dá pra ser bem abrangente e ter várias formas e expressões...ou quem sabe diversos conceitos.

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  3. Montaigne explica que muitas pessoas consideram barbárie aquilo que se ignora, aquilo que não lhe é comum, ou como ele disse, aquilo que não lhe é de uso.
    Concordo que o equilíbrio possa trazer felicidade, mas o equilíbrio dos elementos certos... Sendo as proporções não necessariamente iguais... Creio que para ser feliz a pessoa deve saber dosar exatamente o que realmente importa, suprimir o que desnecessário, suprimir o comportamento mecânico que advém da vontade e da razão que chamo social... A emoção e a razão não precisam ser antagônicas, pode haver razão na emoção... Ou melhor, pode-se ponderar as emoções... A razão que chamo social é aquela que faz com que o ser esmague sua individualidade, sonhos e desejos à favor do "ideal" de um grupo social.

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  4. Ah, acredito que valores sejam fundamentais, mas temos que cuidar com a polissemia do termo "valor". Será que os valores vigentes são os mais "adequados" ? Quem impõe esses valores ?

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